Notícias

Ensino, Pesquisa e Extensão

Extração de quartzito na Serra do Espinhaço pode afetar patrimônio natural

publicado: 14/01/2026 17h35, última modificação: 14/01/2026 19h07
Pesquisa sobre impactos da mineração cita interferência nos corredores turísticos e na preservação ambiental da região

Extração de quartzito na Serra do Espinhaço pode afetar patrimônio natural 01 Extração de quartzito na Serra do Espinhaço pode afetar patrimônio natural 02
Serra do Espinhaço antes da exploração mineral. Créditos: Frank Alison de Carvalho

O pesquisador Frank Alison de Carvalho, técnico em Hidrologia no Centro de Estudos em Geociências do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da UFVJM em Diamantina, apresentou recentemente os primeiros resultados da sua pesquisa de doutorado realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal (PPGCF) da instituição, sob a orientação do professor Israel Marinho - especialista em recuperação/restauração de áreas degradadas e em campos rupestres - que traz um alerta sobre uma ameaça silenciosa e destrutiva para a Serra do Espinhaço, espinha dorsal de Minas Gerais que guarda um material valioso – o quartzito, uma rocha ornamental e de revestimento cada vez mais cobiçada pelo mercado.

Segundo o pesquisador, a proposta da sua pesquisa é apresentar o problema para que posteriormente possa mostrar que há possibilidade de se conviver com a exploração, visto ser ela inevitável e permitida pela legislação, mas que, no entanto, necessita de muita ação por parte do empreendedor para que a atividade se apresente, minimamente, menos degradante, já que ela nunca será sustentável.

“Apresentado o problema, a pesquisa pretende mostrar que há sim metodologias adotáveis para a avaliação do impacto e apresentação de proposições para intervenções em locais menos visíveis e, ainda, metodologias de mitigação do impacto que podem ser aplicadas antes, durante e pós atividades de exploração, abarcando vias de acesso, frente de lavra e áreas de deposição de rejeitos/estéreis”, afirma o pesquisador.

No momento atual, Frank está pesquisando o desenvolvimento de metodologia de recuperação das fachadas verticais dessas áreas de exploração junto ao Laboratório de Biocombustíveis da UFVJM, sob coordenação da professora Lilian Pantoja. “Estamos em processo de estudos e testes com microrganismos de áreas de exploração de rochas quartzíticas para desenvolvimento de materiais e métodos direcionados especificamente à recuperação de fachadas verticais das áreas de exploração de rochas quartzíticas pela metodologia de corte por fio diamantado. Sobre esse material e método ainda não posso dar detalhes, pois necessitamos das certezas da ciência e um certo sigilo por se tratar de uma visão e proposta inovadora originada na UFVJM”, explica ele.

É importante salientar, segundo o pesquisador, que apesar de o levantamento inicial a respeito da sobreposição de áreas de interesse por mineradores e pela atividade de ecoturismo apresentar-se preocupante e, possivelmente, causar um sentimento de repulsa frente aos exploradores minerários, esse não é o objetivo da pesquisa. “Consideramos muito importante a participação dos mineradores em todo o processo, visto que são eles os detentores do direito minerário, formalizadores do processo de licenciamento ambiental, executores do serviço de exploração e, posteriormente, conforme legislação vigente, os responsáveis pela recuperação das áreas degradadas. Sendo assim, essencial um bom trâmite junto a todos os envolvidos no processo”, afirma Frank.

Para o pesquisador, o objetivo final da pesquisa é conseguir oferecer um estudo que seja capaz de sugerir a continuidade do desenvolvimento com menor impacto possível e proposição de medidas para a recuperação das áreas degradadas. Para isso, é preciso considerar a legislação vigente, que permite a exploração de rochas ornamentais dentro da área da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço.

É necessário adequar e aplicar a legislação ambiental com o propósito de enquadrar as atividades minerárias em suas devidas e reais classes de impacto ambiental, o que implicaria na identificação desses impactos e proposição de ações de mitigação ou compensação dentro da realidade de empreendimentos dessa natureza.

Caminhos para uma mineração mais responsável

Extração de quartzito na Serra do Espinhaço pode afetar patrimônio natural 03 Extração de quartzito na Serra do Espinhaço pode afetar patrimônio natural 04 Extração de quartzito na Serra do Espinhaço pode afetar patrimônio natural 05
Serra do Espinhaço sendo explorada. Créditos: Frank Alison de Carvalho

A pesquisa aponta uma série de medidas necessárias para minimizar os impactos da extração de quartzito na região. Entre as principais recomendações estão a realização de estudos de impacto mais criteriosos e específicos para cada área, evitando a simples reprodução de documentos anteriores, e a avaliação integrada dos empreendimentos minerários da região, considerando os efeitos cumulativos das diversas frentes de exploração que muitas vezes estão muito próximas umas das outras.

O estudo destaca ainda a importância do Plano de Fechamento de Mina (PAFEM), que deve ser pensado desde o início do empreendimento, com planejamento de longo prazo e fiscalização constante. Um dado preocupante revelado pela pesquisa é que apenas 25% do material extraído tem aproveitamento comercial - o restante forma pilhas de rejeito que, devido à sua coloração esbranquiçada contrastante com o verde-escuro do entorno, podem ser vistas a até 10 quilômetros de distância, causando forte impacto visual na paisagem.

Para amenizar esses impactos, a pesquisa propõe metodologias de recuperação ambiental adequadas à realidade local, incluindo técnicas já consolidadas pelo professor Israel Marinho para áreas horizontais e o desenvolvimento de uma abordagem inovadora para recuperar as fachadas verticais deixadas pela exploração, simulando a coloração natural do ambiente sem recorrer a soluções artificiais ou ao plantio de espécies exóticas.

A pesquisa enfatiza também a necessidade de maior participação do poder público, tanto no acompanhamento das atividades quanto na gestão da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CEFEM), recurso que pode contribuir para reduzir a dependência econômica da região em relação à mineração.

Trajetória acadêmica e compromisso regional

Extração de quartzito na Serra do Espinhaço pode afetar patrimônio natural 06

Margem direita do Rio Paraúna, próximo a Gouveia. Créditos: arquivo pessoal / Pesquisador Frank Alison

Frank é graduado em Engenharia Civil e concluiu seu mestrado também na UFVJM, no Programa de Pós-Graduação em Saúde, Sociedade e Ambiente, quando estudou o reaproveitamento de resíduos de exploração de quartzo da região de Gouveia (MG). Na ocasião, desenvolveu um concreto de bom desempenho e baixo custo para uso em edificações voltadas à população de baixa renda. Segundo o pesquisador, o material também pode ser utilizado em outras obras civis.

Para Frank, as universidades, em especial a UFVJM, têm papel fundamental como agentes imparciais capazes de propor soluções que contemplem todas as partes envolvidas nas questões ambientais, sociais e econômicas da região. "A UFVJM tem, dentro da sua área de abrangência, condições de propor soluções para diversas questões que ainda não foram percebidas pelos demais agentes envolvidos. O potencial de pesquisa e inovação da universidade pode contribuir significativamente para o desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha e seu entorno em diversas áreas, desde que haja mais recursos para viabilizar esses projetos", destaca o pesquisador.

 

Por Diretoria de Comunicação Social