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Dados da UFVJM entram no mapa global da polinização
Dados coletados na Cordilheira do Espinhaço por quatro ex-mestrandos da UFVJM integram o maior estudo global sobre as relações entre plantas e polinizadores, publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution, no mês de setembro. A pesquisa, liderada por cientistas da República Tcheca, derruba uma expectativa clássica da ecologia: a de que essas relações são mais especializadas nos trópicos, e mostra que o clima pesa mais do que a latitude.
O resultado chega em um momento sensível, pois cerca de 94% das plantas das comunidades tropicais são polinizadas por animais como abelhas, moscas, borboletas, besouros, aves e morcegos, e muitas culturas de frutas, hortaliças, castanhas e oleaginosas dependem desse trabalho. Um relatório de 2019 da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e da Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), que tem entre seus autores o professor André Rech, da UFVJM, estima que a polinização agregue cerca de R$ 43 bilhões por ano à produção brasileira de alimentos, valor esse calculado para 2018.
O mesmo documento lembra que o declínio de polinizadores já foi detectado em várias partes do mundo e que o Brasil ainda carece de monitoramento de longo prazo. Um estudo de modelagem com 95 espécies de abelhas importantes para a agricultura projeta queda de polinizadores em cerca de 90% dos municípios brasileiros por efeito da mudança climática.
É nesse cenário que a nova pesquisa, liderada pela Universidade Charles e pelo Centro de Biologia da Academia Tcheca de Ciências, em Praga, testou uma ideia antiga: a de que as parcerias entre plantas e polinizadores são mais especializadas, isto é, dependem de menos parceiros quanto mais perto dos trópicos estiverem. Os pesquisadores reuniram 3.415 redes de interações descritas em 162 estudos, com mais de 110 mil ligações entre 5.343 espécies de polinizadores e 6.126 espécies de plantas, de todos os grandes biomas terrestres.
O resultado surpreendeu ao afirmar que a especialização não aumenta de forma simples em direção ao Equador. Temperatura e chuva explicam melhor os padrões globais do que a latitude, e o efeito varia muito entre os grupos. As moscas-das-flores, por exemplo, ficam mais perto da expectativa tradicional, enquanto as aves seguem uma tendência quase oposta. Os autores ressaltam que são padrões correlacionais, e não relações simples de causa e efeito.
"Costumamos desenhar os padrões geográficos da polinização como linhas dos polos ao Equador, mas plantas e polinizadores não vivenciam a latitude em si. Eles vivenciam calor, frio, chuva e a mudança das estações, cada um à sua maneira", afirma Robert Tropek, um dos líderes do estudo. Para ele, isso importa para a mudança climática, pois comunidades mais especializadas tendem a ser mais vulneráveis à perda de um único parceiro.
Por isso, a colaboração de diferentes pesquisadores de várias partes do mundo foi decisiva. Entre os 142 pesquisadores de 32 países envolvidos no estudo estão quatro ex-alunos da UFVJM, cujos dados de campo, coletados durante o mestrado, entraram na análise: Marsal Amorim e Fabiana Dores Reis, do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal (PPGBA); Ana Carolina Pereira Machado, do PPGBA e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal (PPGCF), e João Paulo Raimundo Borges, do PPGCF. "Nenhuma equipe sozinha poderia estudar a polinização nessa escala", diz a autora principal, Sailee Sakhalkar.
A Cordilheira do Espinhaço, onde está a sede da UFVJM, explica parte dessa contribuição. A cadeia de montanhas é um ambiente especial para estudar a polinização, pois além de muito diversa é, também, acessível. A reserva dentro do Campus JK da UFVJM, em Diamantina, atrai pesquisadores de diversas instituições, entre elas a UFU, UFMG, UFC, Museu Goeldi, INPA, UFV, Unicamp, USP, UFABC, UFSC e outras instituições brasileiras, além de cientistas da Europa, das Américas do Norte e Central, da África e da Ásia.
Um dos coautores do estudo, o pesquisador Jeff Ollerton, referência mundial em polinização, que já esteve na UFVJM, lembra da questão que o acompanha desde 2002 e resume o achado: “não existe um único gradiente de especialização com a latitude e, sim, vários padrões geográficos sobrepostos, que dependem do grupo de organismos e da medida usada”.
Para o professor André Rech, um dos colaboradores da pesquisa, esse gradiente é um ponto central do trabalho. “Entender onde os organismos estão, com quem interagem e como se organizam suas comunidades ecológicas é uma questão central para a ciência ecológica moderna e nos ajuda a entender inclusive os efeitos das mudanças ambientais em curso no planeta. Na dinâmica das extinções, as interações são uma dimensão invisível que se perde antes de as espécies desaparecerem. Entender como funcionam e como podem ser conservadas as interações ecológicas é fundamental para proteger o que ainda existe dos ambientes naturais e da maioria dos produtivos que dependem dessas interações”, afirma o professor.
Em um cenário de crise global de polinizadores, a contribuição do Espinhaço reforça o papel da UFVJM e de seus programas de pós-graduação na produção de conhecimento sobre a biodiversidade e mostra que dissertações de hoje podem ajudar a responder perguntas que a ciência faz há décadas.
Por Diretoria de Comunicação Social